Dia do Filme Caseiro (Home Movie Day) – Curta 8, Curitiba

Ano passado foi a primeira edição do Home Movie Day durante o Curta 8. Nossa primeira sessão foi pequena, mas valiosa. Passamos um filme de família do Harry Luhm, que opera um telecine caseiro e já transformou milhares de filmes de família para DVD, o documentário provocativo “Maria das Graças do Espírito – Uma excepcional criança” filme trazido pelo Toninho (produtor executivo do festival) produzido por uma turma do Super 8 de Curitiba e filmes de família de participantes do festival.

Neste ano adotamos o nome em português – Dia do Filme Caseiro—e fiz uma chamada com mais antecedência para que os realizadores e participantes do festival trouxessem filmes para o evento. Marcos Sabóia da Cinemateca de Curitiba também abriu o acervo de Super 8 da instituição para que eu pesquisasse e escolhesse alguns filminhos para passarmos durante a sessão, achei umas coisas maravilhosas.

Para minha grata surpresa várias pessoas trouxeram rolinhos em Super 8. Dos filmes inscritos montei uma sessão com doze filmes divididos em três partes: Filmes de Família, Filmes de Viagem e Filmes da Cinemateca de Curitiba. Durante a projeção, o microfone rodou e as pessoas comentaram e contaram histórias sobre os seus filmes. No Dia do Filme Caseiro do Curta 8 – 2011 figuraram os seguintes títulos:

Filmes de família

- Cenas da Piscina – 1978

A sessão começou animadíssima. Camila Battistetti, acompanhada da sua mãe, trouxe os filmes rodados pela sua avó Cilú que era uma verdadeira cineasta amadora apaixonada pelo Super 8. O filme, um excelentíssimo exemplar do gênero filmes de piscina (um dos meus favoritos), traz a família, incluindo crianças e adultos, saltando do trampolim numa verdadeira competição de saltos, ora acelerados, ora filmados em slow motion. As manobras arrancaram aplausos. Rodado em São Paulo.

- Cenas em família

Trazido por Cristian Borges, cenas da família em casa no interior de São Paulo. Filme rodado já nos anos 2000.

- Natal

O filminho foi escolhido da coleção familiar do Rafael Urban que trouxe o seu pai para a projeção.  O filme foi uma surpresa engraçada. Como foi um dos únicos rolos que não vi em mesa enroladeira, escolhi pelo nome anotado no cassete: “Natal”. Contrariando as minhas expectativas de ver crianças abrindo presentes, as cenas traziam imagens de tanques de criação de camarão, provavelmente rodados na cidade de Natal. Como esses filmes caseiros misturam uma série de filmagens, eu fiquei rezando para que pelo menos uma pontinha trouxesse o Rafael abrindo um presente embaixo de um pinheiro cheio de bolas de Natal. Não foi o caso e a projeção foi salva pela narração e graça do Senhor Urban.

- Bodas de Ouro

Filme dos avós de Mariana Zarpellon que nunca tinha visto esse material e fez uma telecinagem caseira para mostrar para a família depois. Como o filme era mais longo, aproximadamente 15 minutos, foi projetado no final. Numa fazenda no interior do Paraná, missa, votos e depois churrasco e dança.

Filmes de viagem

- Isla de las Muñecas

Lucas Bonini rodou seu cartucho Super 8 durante uma viagem ao México e uma visita à Ilha das Bonecas, local em que Don Julian, um religioso que morou na ilha desabitada entre os anos 1950 até a sua morte em 2001,  colecionava bonecas velhas e as espalhava pelas casas e árvores da ilha acreditando espantar o espírito de uma menina que havia morrido afogada no mesmo local.  As imagens da ilha são assustadoras, informações e fotos numa matéria que pode ser conferidas aqui. Filmado já nos anos 2000.

- Suape

Rodado por Alexandre Figuerôa na década de 1970 na região de Suape, em Pernambuco, antes da construção do porto. Registro das praias e pescadores trabalhando antes da transformação na região.

- Chile e Atacama

Filme de Fábio Allon, produtor do Curta 8 e integrante da Processo Multiartes, com imagens da sua viagem com a namorada para o Chile. O genial é que, mesmo sendo rodado agora nos anos 2000, os gestos continuam os mesmo de sempre: o casal se reveza na câmera, as poses diante dos pontos turísticos como se fossem uma foto, os pulos e os acenos para a câmera. Fábio disse que pretende fazer um filminho desses sempre que viajar.

- Veneza

Filme dos pais de Chico Toledo rodado em Kodachrome nos canais e nas ruelas de Veneza. Típico filme de família/viagem com direito a imagem dos pais captada pelo filho pequeno (irmão mais velho do Chico). A projeção teve acompanhamento especialíssimo de Chico improvisando com alguns standards de jazz ao trompete. Data aproximada, começos dos anos 1980.

- “Dê Carona”

Filmete rodado pela mãe do Chico nos tempos em que estudava Comunicação na Universidade de Brasília, provavelmente no final da década de 1970. Campanha pró-carona, o filme começa na rodoviária de Brasília com as longas filas do ônibus para a Universidade. Um homem pede carona, um carro pára, ele desce na Ala Norte do Minhocão (nome do prédio central da UnB no qual a maioria dos cursos se concentra, projeto foi idealizado por Darcy Ribeiro). Termina com letras brancas escritas sobre uma transparência: “Dê carona”.

Filmes da Cinemateca de Curitiba

- “Jovens Bobocas”

Uma ode ao besteirol puro, duas jovens na praça fumando, rindo, fazendo bobagens. Policiais se aproximam. Letreiros feitos com folha de papel e caneta Bic. O filme foi rodado por Palito, superoitista da cidade.  Tinha cara de final de anos 1970 ou começo dos anos 1980.

- Gilda

Gilda é uma figura tão famosa em Curitiba que até eu já tinha ouvido histórias sobre ele/ela. Fuçando os rolinhos na Cinemateca achei um com o seu nome escrito e minhas suspeitas se confirmaram. Gilda era um travesti, talvez não no sentido mais tradicional do termo, e andava pela XV (a famosa “Quinze”) pedindo trocado. Quem se recusasse levava um beijo na boca. O rolo traz as imagens de Gilda, com barba e batom vermelho, trabalhando e roubando os seus beijos. Yanko Del Pino fez o documentário “Beijo na boca maldita” sobre ela. O curta pode ser visto no site http://www.beijonabocamaldita.kit.net/ . O filme amador causou comoção, os curitibanos todos lembraram da Gilda.

- Banda Polaca

Quando eu me deparei com esse filminho com a Banda Polaca, bloco de carnaval que saiu nos anos 1970 e 1980, eu achei que conectaria perfeitamente com o filme da Gilda. Durante a sessão descobri que Gilda tirava o maior sarro do bloco e que se tornou até persona non grata sendo inclusive afastada do desfile. Um relato sobre o carnaval em Curitiba, a Banda Polaca e a Gilda pode ser encontrado aqui: http://www.josedomingos.com.br/2011/02/banda-polaca-e-folclorica-gilda-sucessos-no-carnaval/ . Durante a projeção também surgiu um assunto polêmico. Alguns curitibanos afirmam que a cidade tem o melhor carnaval do país, a conferir.

A sessão para mim foi emocionante, agradecimentos mil para todas as pessoas que trouxeram os seus filmes, para toda a equipe Curta 8 e, em especial, para o projecionista ultra paciente Lucas Vega e Marcos Sabóia da Cinemateca de Curitiba. Ano que vem tem mais.

Curta 8 – Festival Internacional de Cinema Super 8 de Curitiba

Este ano foi a terceira edição do Curta 8 que participei. Na primeira, em 2009, fiz parte do júri, no ano seguinte organizamos o primeiro Dia do Filme Caseiro e este ano a sua reedição. Eu tenho que confessar que participar do Curta 8 é uma das grandes alegrias do meu ano. Primeiro porque é um festival pequeno, mas grandioso nas suas realizações. A primeira delas é que todos os anos mais de uma dezena de filmes são produzidos em Super 8 no chamado Tomada Única: filmes realizados “no gatilho da câmera” sem edição ou qualquer interferência posterior, a não ser uma trilha musical ou sonorização tocada no momento da projeção. Alguns dos inscritos no Tomada Única participam de uma oficina de Super 8 em Curitiba, outros enviam filmes conforme as regras do jogo. Os filmes revelam um esforço diferente de criação e pensamento, aqui de forma mais radicalizada por conta das restrições, que a filmagem em película requer. É uma aventura, principalmente para os realizadores, ver os seus filmes projetados pela primeira vez durante o festival. Até este momento decisivo não se sabe se o filme foi sub-exposto, se o corte funcionou e se deu tempo para captar as cartelas finais.

Algumas experiências não dão certo, outras impressionam pela capacidade de realizar trucagens com extrema precisão, por contar uma história em somente três minutos, pela beleza da fotografia, pela experimentação. Aqui é possível ver o vencedor do Tomada Única do ano passado, “Iaia et Leni” dirigido por Eugenia Castello, um dos meus favoritos:

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A primeira emoção do Curta 8 é essa, ver um grupo de pessoas infectadas pelo vírus da película e do Super 8, um formato que ainda permite com baixo custo uma experiência de fazer filmes no formato analógico. E o vírus do Super 8 pega mesmo, várias são as pessoas que continuam filmando no formato e voltam para o festival com novos filmes embaixo do braço.

A segunda realização é que o Curta 8 também é um festival de apaixonados pelo formato, uma espécie de congresso dos novos e antigos superoitistas. Leandro Bossy Schip, o apaixonado mor, é o criador do festival que teve a sua primeira edição em 2005. Descobriu o Super 8 já nos anos 2000, mas desde então realizou curtas,  mantém suas câmeras e projetores todos em ordem,  além de organizar todas as edições do festival (notícias sobre ele e seus filmes aqui).  Ele é o responsável pelas oficinas de preparação do Tomada Única junto com Pedro Merege, superoitista de Curitiba. Outro apaixonado oficial é o Lucas Vega, projecionista que cuida magistralmente bem de todas as sessões em película e que por anos organizou o festival de Super 8 de Campinas. Os convidados e participantes do festival sempre revelam essa loucura saudável pelo formato pautado pelo amadorismo, aqui no seu duplo sentido, um amor pelo o que se faz fora das amarras ou restrições do profissionalismo (o que quer que ele seja: o bem acabado, o pago, o bem distribuído, o que dá dinheiro). Nas mesas de bar são freqüentes as conversas sobre traquitanas, formatos alternativos de telecinagem, atualizações sobre os melhores lugares para revelação, descoberta de filmes. Nessas aulas não oficiais eu aprendo horrores.

A terceira realização é que junto com o curador Rafael Urban o Curta 8 faz uma verdadeira arqueologia do cinema Super 8 no Brasil e na América Latina (pequena observação, o Curta 8 é o único festival do formato na América Latina). Em 2009, o festival dedicou uma retrospectiva aos filmes experimentais do argentino Ernesto Baca. No ano seguinte trouxe Claudio Caldini, que carrega para todos os lugares que vai uma mala de couro com todos os seus filmes em Super 8, e suas projeções em forma de trípticos. O festival também já projetou filmes de Celso Lück e Cyro Matoso, cineastas da cidade litorânea de Paranaguá, na sessão “Cinema Super 8 à beira-mar”, a produção em Super 8 do cineasta e professor Cristian Borges e as projeções performances de Marcos Bertoni.

Este ano as retrospectivas foram especialíssimas. A primeira foi dedicada ao Grupo Experimental de Cinema Primeiro Plano e refez a sessão “Cinema Transcendental” que aconteceu originalmente na Cinemateca do Museu Guido Viaro em 30 de Novembro de 1979. Os filmes “Hu”, “Vitrines” (uma verdadeira pérola), “Escura Maravilha” e “Aluminosa espera do Apocalipse” foram todos projetados em seu formato original e Fernando Severo, Peter Lorenzo e Rui Vezzaro ficaram para uma conversa depois da projeção. Para mim foi uma sessão histórica.

Rafael Urban, Fernando Severo, Rui Vezzaro, Ilana Feldman e Peter Lorenzo no debate após da sessão "Cinema Transcendental".

O programa “O cinema Super 8 de Pernambuco”, com a curadoria do pesquisador Alexandre Figueirôa, trouxe uma pequena amostra do cinema Super 8 de Pernambuco. Digo pequena amostra porque o programa contemplou as várias vertentes do que foi produzido entre aproximadamente 1973-1983 em Recife: os filmes pautados por uma “sociologia do folclore” de Celso Marconi e Fernando Spencer (“Valente é o galo” e “Bajado, um artista de Olinda”), movimento cultural esse criticado por Jomard Muniz de Britto no seu magistral “Palhaço Degolado” (uma das verborragias mais inteligente que já vi/ouvi em um filme brasileiro) e por Geneton Moraes Neto em “A flor do Lácio é vádia”. O programa se completou com os filmes de artista de Paulo Bruscky. Importante dizer que a dissertação de mestrado de Alexandre Figuerôa “O cinema Super 8 em Pernambuco: do lazer doméstico à resistência cultural”, publicada em 1994, é uma das poucas referências sobre o assunto. Eu tinha lido a dissertação, mas faltavam os filmes, ponto fortíssimo deste ano.

Para coroar uma das edições mais completas do festival, ainda tivemos a mostra dedicada a Leonardo Crescenti e Carlos Porto, cineastas que fizeram parte da Quinzena dos Realizadores em Cannes no começo da década de 1980. “Gratia Plena”, que foi um dos filmes programados em Cannes, nos mostra os dramas da carne e espírito de uma freira por meio de enquadramentos muito bem compostos, a câmera controlada de tal forma que em certos momentos a montagem parece uma série fotográfica. O controle dos filmes de Crescenti e Porto contrastam com a produção da francesa Isabelle Wuilmart, que veio para o Brasil como convidada do festival, um verdadeiro exercício de liberdade. Infelizmente eu não consegui assistir o seu “A Odisséia”, longa inacabado que tirou o fôlego de quem pôde assistir. Os seus curtas já impressionam pela liberdade e leveza, um ar de cinema silencioso e a experiência do primeiro cinema que não separava o filme das outras artes de variedades – o circo, a música, a mágica – tudo isso misturado de forma extremamente natural e bela com mitos e arquétipos da literatura como o meu favorito “Lola de Valence”.

Não bastassem todas essas maravilhas, o festival ainda promove uma competitiva internacional com filmes rodados em Super 8 finalizados em digital e no último dia do festival o Dia do Filme Caseiro, evento especialíssimo para mim que dedicarei um post exclusivo em breve. O Curta 8 junta tudo isso: realização de filmes, debates, pesquisa, projeção no formato original, encontro de cineastas e pesquisadores. É um festival completo e, como já disse um amigo, voltamos sempre de Curitiba voando nas asas do Super 8.

Mais preservação de vídeo (e as maravilhas da AMIA)

Complementando o post anterior, a AMIA (Association of Moving Image Archivists) possui diferentes grupos de trabalho dedicados a aspectos  da preservação de filmes (existem grupos de articulação entre a academia e universo dos arquivos, um para bitolas “amadoras”-na falta de um termo melhor para traduzir small gauge, projeção, nitrato, digital, a lista é grande). Um deles é dedicado especificamente à Preservação e eu encontrei hoje um documento maravilhoso sobre a preservação de vídeo, o “Videotape Preservation Fact Sheet”, possui histórico do formato, aspectos técnicos, me parece ser extremamente útil.

Outra dica boa,  a AMIA oferece várias bolsas e existem algumas  mais acessíveis para nós brasileiros, incluindo uma que financia a participação de um arquivista no encontro anual da AMIA, vale uma olhada: http://www.amianet.org/events/scholarship.php.

“Filme, Vídeo e Arte – Compartilhando Experiências”

Há duas semanas aconteceu no Itaú Cultural em São Paulo um seminário acompanhado de mostra de filmes intitulado “Filme, Vídeo e Arte – Compartilhando Experiências”. A questão principal do seminário era discutir o papel da imagem em movimento, seja utilizada como apropriação por artistas em suas obras ou como uma obra em si, nos espaços das “artes plásticas”: museus, galerias, centros culturais e exposições. As questões que se colocam são múltiplas e diferem um pouco das questões práticas dos arquivos audiovisuais mais tradicionais. Primeiro, os padrões de conservação, preservação e restauro são diferentes de obras de artes “auráticas” onde a obra é um objeto (um quadro, uma escultura). O audiovisual exige outros padrões. Nos espaços preparados para conservar e difundir esses objetos, como se preparar para conservar e difundir materiais fílmicos e videográficos que se desgastam a cada reprodução? Como lidar com a obsolescência dos formatos e dos aparelhos de reprodução? Como criar outra estrutura de preservação para materiais que seguem outra lógica no que diz respeito à difusão?

Não pude ir a todos os debates, mas assisti à sessão de vídeos e ao seminário dedicado ao tema “Arquivos, Preservação e Distribuição”. Os vídeos faziam parte do acervo da Electronic Arts Intermix e estavam na mesa de debate Sang Ae Park do Nam June Paik Art Center, Rebecca Cleman da Electronic Arts Intermix e Jorge La Ferla representando o Museu de Arte Moderna de Bueno Aires – Mamba. Na sessão de vídeos fica claro o desafio de preservar esse tipo de mídia. Materiais da pré-história do formato, produzidos entre 1969-1979, tinham a qualidade muito comprometida. É evidente como a imagem em vídeo é informação e não um registro da luz em um material fotossensível processado quimicamente. Projetados em DVD, cada copiagem faz a imagem ficar muito distante do original, a degradação dos vídeos é muito rápida. Mas também fiquei pensando que a reprodução dessas obras também se difere muito da reprodução “cinematográfica”, o mito de se manter o filme mais próximo da sua reprodução original. A qualidade da imagem pode não ser o eixo fundamental, importa muito nessas obras a idéia do corpo presente, uma re-apresentação física da performance do artista feita para a câmera ou captada por ela como em A construction for disaster (Hilary) de Kate Gilmore (2002). Alterando os processos artísticos, o vídeo permite que o espaço da performance se “reproduza” e se multiplique para além dos espaços da arte como em Identity (Anthony Ramos, 1972). A arte também está no jogo de olhares que se estabelece; o artista que se olha no mesmo momento em que se filma (algo possível com o vídeo e o uso de monitores), o jogo extra-campo como nos vídeos Scar/Scarf (1973-1974), Frozen & Buried alive, entre outros da artista Cyntia Maughan, os meus favoritos da sessão.

Sobre os debates, confesso que fui com uma curiosidade técnica para saber como esses arquivos montavam estruturas de preservação dos seus acervos e que tipo de logística era usado na migração dos materiais em vídeo. As falas não foram muito técnicas, porém. A dedicada ao arquivo de Nam June Paik foi extremamente burocrática sofrendo da “síndrome do PowerPoint”. Ela citou brevemente que boa parte do acervo é constituído de materiais em U-matic e que as migrações são feitas para o formato Betadigital e arquivos MOB. A estrutura do museu dedicado ao artista e ao incentivo da arte contemporânea, no entanto, impressiona, basta dar uma olhada no site.

A segunda fala dedicada ao EAI traçou um histórico da instituição que começa com Howard Wise, dono de uma galeria de arte que, no fim dos anos 1960, começa a colecionar arte cinética e os primeiros trabalhos utilizando de arte eletrônica. Criado em 1971, o centro seria um pólo de distribuição de arte eletrônica e vídeo, além de oferecer estrutura técnica para os artistas realizarem os seus trabalhos. É curioso também perceber como existia um artesanato do vídeo, como um trabalho de edição exigia muito equipamento, as fitas e as câmeras eram grandes e pesadas, exigia-se muito conhecimento de programação. Não por acaso, o filme de Bill Viola apresentado na sessão, The space between the teeth (1976), dentre outros, eram feitos todos em parceria de institutos de tecnologia de algumas universidades. A arte e o vídeo eram encarados como novas ferramentas e opção não era pela facilidade, mas sim, a vontade de explorar uma nova mídia. Impressiona também como a televisão (vários vídeos também eram feitos em parceria com canais educativos) e o sistema a cabo, que permitia a criação e acesso de novos canais, tinham para esses artistas um caráter revolucionário e utópico, e eram vistos com um espaço fortíssimo de intervenção.

Centrado primordialmente na difusão, no decorrer dos anos, o EAI criou uma estrutura básica de conservação e conseguiu aprovar projetos de restauração para filmes do acervo. O site traz todas as obras do acervo com informações detalhadas sobre artistas e os materiais, e disponibiliza um guia bem educativo para a exibição e preservação de arte eletrônica e vídeo, além de um glossário sobre preservação de vídeo arte e um histórico dos formatos em vídeo extremamente últil.

Jorge La Ferla, o mais propositivo dos debatedores, demarcou a necessidade de se pensar a preservação e difusão da videoarte produzida na América Latina. O caso do Mamba já delimita uma dessas diferenças. Enquanto arquivos e museus europeus e norte-americanos trabalham muito com a aquisição de obras e a sua “comercialização”, o acervo do museu argentino se formou, basicamente, através de doações. Ele também tentou explorar como a tecnologia da informação (programação, elaboração de metadata), hoje fundamental para arquivos catalogarem e disponibilizarem informações sobre os acervos pela internet, pode ser constitutivo para certas obras de arte também e citou o trabalho de Chris Marker, Immemory, um projeto em CD-ROM desenvolvido pelo artista e o Pompidou.

Um terceiro dia de debates foi dedicado ao contexto brasileiro e ao acervo do Itaú Cultural, que começa uma política de aquisição de trabalhos de videoartistas brasileiros e, inevitavelmente, terá que pensar em formas de difusão e preservação.

“Filmografia Baiana: Memória Viva!”: entrevista com Laura Bezerra

No começo do ano entrei em contato com a pesquisadora Laura Bezerra porque queria fazer uma entrevista com ela sobre o site “Filmografia Baiana”, um projeto de mapeamento, documentação e divulgação do cinema produzido na Bahia. Mandei algumas perguntas por e-mail e as respostas demoraram a chegar porque Laura estava atribulada com o lançamento da segunda etapa do projeto, que incluía uma nova versão do site, visualmente diferente e com mais informações. E eis que Laura me respondeu e eu fiquei muito feliz.

O projeto começou em 2008 e foi dividido em duas etapas, a primeira um mapeamento inicial com informações básicas coligidas sobre os filmes e a segunda etapa, com novo nome “Filmografia Baiana: Memória Viva!”, visou aprofundar as informações disponibilizadas com acréscimo de sinopses, créditos de equipe, cópias disponíveis e outros dados. Acho o projeto super importante porque a construção de uma filmografia, dependendo do seu enfoque, pode ter um movimento constante. Acompanhar o cinema de uma região prevê não só a pesquisa histórica, mas também o registro da produção atual, enquanto a história acontece. E isso catalisa outros movimentos, como vocês poderão perceber na entrevista com a pesquisadora Laura Bezerra.

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O site Filmografia Baiana é um projeto independente criado por iniciativa sua e de um grupo de pesquisadores. Como surgiu a idéia do projeto e que tipo de demandas vocês buscavam atender?

Foi uma iniciativa minha, baseada na minha experiência de trabalho no Instituto Alemão de Cinema (DIF) , onde trabalhei no portal de documentação do cinema alemão (www.filmportal.de). Voltei ao Brasil depois de 19 anos na Alemanha e descobri que se escrevia muito sobre Glauber e o Ciclo Baiano de Cinema, mas se sabia muito pouco sobre a produção baiana em geral. As pesquisas ainda são muito centradas nos diretores mais conhecidos, ou na análise de determinados filmes, considerados de “grande valor artístico”. Não se tinha nem uma vaga ideia de quantos filmes foram produzidos na Bahia, por quem, o que mudou na produção audiovisual do estado nos últimos anos. E eu percebia grandes mudanças: o desenvolvimento tecnológico levou a um aumento da produção em Salvador, na periferia e no interior da Bahia. Além disso, temos atualmente quatro cursos de cinema: dois em Salvador (na UFBA, universidade federal e na FTC, uma faculdade particular), um em Vitória da Conquista (na UESB, universidade estadual), um em Cachoeira (na UFRB, universidade federal).

Vocês usam diversas fontes de pesquisa – catálogos, sites, filmografias – o projeto de certa forma centraliza todas essas informações e acrescenta outras. Como que vocês começaram a pesquisa? Que tipo de fonte foi escolhida para iniciar o projeto? Vocês partiram dos filmes ou das fontes secundárias? Existia uma lista de filmes mais conhecidos que vocês visavam contemplar?

Até 2008, quando iniciamos o projeto, não existia uma documentação abrangente da produção de cinema e vídeo do nosso estado. Partimos das iniciativas existentes, como por exemplo o “Panorama do Cinema Baiano” (André Setaro, 1976) ou “Cinema O Super-8 na Bahia” (Paulo Sá Vieira, 1984) e de uma pesquisa na base de dados da Cinemateca Brasileira. Além destas fontes fizemos um mapeamento da produção, um trabalho de prospecção mesmo, baseado em catálogos de mostras e festivais (especialmente as Jornadas de Cinema da Bahia, o Festival Nacional de Vídeo Imagem em 5 Minutos, as exibições do Projeto Quartas Baianas e da Mostra Cinema Conquista).
A lista das fontes utilizadas está disponível no site. Nesta primeira fase do projeto cadastramos 1.412 filmes, mas só apresentamos informações mínimas sobre cada um deles. Dados básicos registrados e disponibilizados no site da Filmografia Baiana na primeira etapa do projeto: a. Título original / títulos alternativos ; b. Categoria (ficção, não-ficção, animação, experimental, cine-jornal, videoarte) ; c. Informações sobre o material original: suporte, cor, metragem/duração, etc.; d. Ano de estreia; e. Diretor (a); f. Companhia(s) produtora(s); g. Contato dos realizadores ou produtores (essa informação será disponibilizada mediante previa autorizado pelos mesmos); h. Fontes utilizadas.).

"Redenção" (1959)

Em 2010, nossa meta foi atualizar e aprofundar a pesquisa a partir de 1959, ano de estréia do longa-metragem “Redenção” (dirigido por Roberto Pires). Escolhemos o seguinte recorte para o trabalho

na segunda fase:
a. Filmes de longa-metragem realizados na Bahia entre 1959-2010.
b. Filmes baianos realizados em 35mm nos últimos 50 anos.
c. A produção audiovisual baiana de 2005 a 2010 (independente de metragem e suporte).

Estes filmes foram apresentados com as seguintes informações:
a. Créditos principais ou completos;
b. Sinopse;
c. Fotos e cartazes (caso cedidos pelos detentores dos direitos).

Sempre que possível disponibilizaremos também informações sobre:
d. Patrocínio/financiamento;
e. Locações e filmagens;
f. Estreia e lançamento;
g. Prêmios;
h. Disponibilidade de cópias para exibição ou preservação;
i. Contato do realizador e/ou produtora (caso seja autorizado).

Trabalhamos sempre que possível com as fontes primárias e transcrevemos os créditos. Os filmes foram encontrados sobretudo no Núcleo de Memória da Dimas (Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia) e na Produtora Universitária de Vídeo – ProVídeo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste Baiano), ou cedidos pelos realizadores.

Quais foram as dificuldades que vocês encontraram para implementação da base de dados online? Que tipo de base de dados e programa vocês usam?

Construímos um base de dados, baseada em Access, especialmente para nossas necessidades. A base é muito fácil de usar e nos permite trabalhar com estudantes e estagiários.
A estruturação da base na primeira fase, quando cadastrávamos apenas os dados básicos, foi muito simples. A sua ampliação, para podermos cadastrar os créditos completos, foi bem mais complicada. Tentamos que ficar o mais próximo possível dos créditos, mas queremos também um mínimo de padronização. Temos que pensar, por exemplo, em como lidar com as mudanças históricas nas funções e nas nomenclaturas.

Eu acho importante que vocês tragam informações sobre as cópias disponíveis, mas as filmografias muitas vezes trazem uma frustração: lemos e pesquisamos sobre filmes que não conseguiremos assistir. Você saberia dizer qual é a proporção de filmes presentes na filmografia baiana que não possuem cópias disponíveis e acessíveis para pesquisadores? E, desses filmes, quais estão na Bahia?

Infelizmente não sei responder a estas questões. Na verdade, minha meta a longo prazo é que a Filmografia Baiana consiga responder a elas e promover a conexão entre memória, preservação e difusão. Sempre que possível, divulgamos informações sobre cópias, mas não é fácil; às vezes nem mesmo os realizadores têm certeza de onde elas estão. O que podemos dizer é que as instituições detentoras de acervo na Bahia, a Dimas (do estado) e a Fundação Gregório de Mattos (do município), possuem espaços de guarda extremamente precários e infelizmente até então sequer se delineou uma política de preservação audiovisual na Bahia.

Outra coisa que achei de extrema importância é como uma filmografia geograficamente localizada “fora do eixo” ressalta a presença da produção amadora. Mais importante também é trazer informações sobre os realizadores que, nesse caso, são os detentores dos filmes. Vocês tiveram contato mais direto com esses realizadores? Vocês chegaram a “descobrir” filmes que não estavam presentes em outras filmografias ou catálogos?

Inúmeros! Neste ponto considero o projeto um grande sucesso. Mais de 2/3 dos 1.412 filmes cadastramos na primeira fase eram desconhecidos. Temos hoje na base de dados da Filmografia Baiana 1.803 filmes. Estamos inclusive descobrindo uma produção no interior do estado que só era conhecida na própria cidade. Encontramos até mesmo um blockbuster no interior. Estou buscando parcerias com universidades do interior e tivemos uma estagiária em Vitória da Conquista e outra em Feira de Santana. A ideia é ampliar estas parcerias na terceira etapa do projeto. Estamos trabalhando também com a União dos Cineclubes da Bahia, que tem uma boa penetração no interior.

Como se deu a relação com os arquivos?
Os filmes da Fundação Gregório de Mattos não estão disponíveis para visualização.
Trabalhamos muito com o acervo de DVDs da Dimas, onde os funcionários são cooperativos. Utilizamos também alguns cartazes. Infelizmente, nem todo o acervo da Dimas está catalogado e disponível, mas tenho que reconhecer que eles vêm trabalhando nisso. Seria ótimo podermos trabalhar com o seu acervo de fotografias na próxima fase do projeto.

Como tem sido a movimentação e a recepção do site?

Muito boa! Temos o apoio ativo da grande maioria dos cineastas. E os cineclubistas e a comunidade acadêmica estão nos descobrindo e utilizado (fomos referência numa tese de doutorado, há uma dissertação e um TCC em curso que usam nossos dados como base).

Quais são os próximos passos do projeto e os maiores desafios a serem enfrentados no momento?

A Filmografia Baiana é pensada de forma modular; com isso vamos disponibilizando os dados aos poucos, sempre ao final de cada etapa. Pretendemos trabalhar, no futuro, os seguintes módulos:
a. Filmes em 16mm e Super-8
b. Filmes de 1990-2004 (independente do suporte)
c. Os inícios do cinema na Bahia (1910-1935; 1936-1958).
d. Num momento posterior pretendemos trabalhar também com abordagens biográficas, o que nos permitirá incluir as filmografias completas de diretores como Glauber Rocha, Roberto Pires, Orlando Senna, Geraldo Sarno, entre outros, que produziram também fora da Bahia.

"Anil" (1990), Roberto Bélens

Pensar o projeto assim, de forma modular, tem vantagens e desvantagens. Entre os pontos negativos está levar ao público uma pesquisa que, no todo, não foi concluída. Um exemplo: quem procura atualmente, os filmes do diretor Fernando Belens, encontra 25 filmes. Destes, somente seis estão bem documentados (dentro do recorte da segunda etapa do projeto); os quinze curtas filmados em Super-8 e os três em 16mm ainda estão com as informações básicas da primeira fase da Filmografia Baiana. É neste sentido que falamos que a pesquisa, no todo, ainda não foi finalizada. Por outro lado, disponibilizar informações sobre mais de 1800 filmes não nos parece pouco. Entre eles, temos 300 filmes com os créditos completos, registrados a partir das fontes primárias; a mesma quantidade, com créditos principais; inúmeras sinopses, fotografias, cartazes, contatos dos realizadores etc. A vantagem, portanto, é compartilhar a pesquisa com os interessados desde o começo. Outro ponto positivo é poder ir aperfeiçoando o projeto em função das demandas dos usuários. Um exemplo: recebemos desde 2008 muitos e-mails solicitando as sinopses dos filmes. Ao perceber que isto era uma demanda forte, incluímos não somente sinopses (algo que já pretendíamos fazer), como também inserimos um campo de busca para as sinopses em todas as páginas do site (algo que não tínhamos pensado anteriormente).

A maior dificuldade que enfrentamos é não termos um escritório próprio, nem uma estrutura de trabalho fixa. Esta é a maior dificuldade. Na primeira fase, que durou quatro meses, o projeto foi financiado pelo Fundo de Cultura do Estado da Bahia.

A segunda fase, chamada de Filmografia Baiana: Memória Viva! foi o projeto vencedor do Edital nº 16/2009 – Apoio à Pesquisa e Preservação da Memória Audiovisual Baiana realizado pelo IRDEB – Instituto de Radiodifusão do Estado da Bahia, órgão vinculado à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Foi assim que financiamos a segunda etapa da pesquisa. Não temo a menor ideia de como vamos financiar a fase 3 do projeto.

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O lançamento do novo site “Filmografia Baiana” foi agora em abril e, por coincidência, acontece na Cinemateca Brasileira até o dia 01 de Maio uma retrospectiva do cinema baiano com cópias restauradas e filmes que compõem a caixa de DVD “Bahia, 100 anos de cinema” lançada em conjunto com o DIMAS (Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia). O catálogo, com textos da curadoria, informações sobre os filmes e fonte das fotos deste post, pode ser baixado no site da Cinemateca Brasileira.

Filmes amadores em Brasília

Voltei para Brasília, minha cidade de criação. E, é claro, vim munida do desejo de encontrar os filmes domésticos escondidos nos apartamentos daqui. Sobre a história da cidade, sempre achei que ela poderia abarcar um pouco mais da estranheza de se mudar para uma cidade modernista recém-construída, ou ainda em construção, como foi o caso de muita gente. Sobre as anedotas dos primeiros anos da cidade, minha mãe e meus tios contam histórias incríveis como a ida para o Núcleo Bandeirante uma vez por semana para fazer compras, os redemoinhos que levantavam as saias de quem ia para o colégio, a caça de ratos como passatempo e o deserto silencioso que era a cidade. De alguma maneira acho que os filmes domésticos feitos na cidade poderiam ilustrar essas histórias.

Eis que hoje minha mãe me encaminha uma matéria publicada ontem no Correio Braziliense sobre um acervo de filmes em 16 mm do engenheiro Fernando da Glória Rosendo, responsável pela construção do Palácio da Alvorada e que chegou por aqui em 1956. A filha Ana mantém os filmes em casa e eu agora não consigo pensar em outra coisa além de encontrá-la. Já liguei na redação, o jornalista não estava…

Acho que tem muita pesquisa boa que pode ser feita sobre a história visual da cidade, já encontrei muitas filmagens amadoras de Brasília que era de enorme interesse para turistas. O filme mais bonito projetado no Home Movie Day na Cinemateca Brasileira, por exemplo, era de uma família de São Paulo viajando de Kombi para Brasília, acredito que no começo dos anos 1960. Um road movie amador e uma verdadeira pérola. Curiosamente, o filme é em preto e branco (lindo) e as únicas imagens coloridas, já extremamente desbotadas, são aquelas dedicadas à nova capital. Acho que estavam guardando o melhor para o final, pena que as imagens não sobreviveram.

Me disseram que o jornalista volta às 18hrs, enquanto isso segue o link para a matéria “Tesouros da construção de Brasília permanecem guardados”.

Fernando da Glória Rosendo e Oscar Niemeyer

Brincando de restaurar

Acho que o mais interessante em um processo de restauro é que cada filme indica a sua rota. Certos materiais precisam ter a suas perfurações minuciosamente refeitas, mas a qualidade da imagem pode estar irretocada. Neste caso, serão horas e às vezes dias para reparar as bordas, dificuldades na copiagem, mas o trabalho de marcação de luz segue sem muitos problemas. Filmes coloridos, por outro lado, são uma batalha para o marcador de luz: como recuperar o equilíbrio das cores que esmaeceram em velocidades diferentes? O som é também um caso a parte: filmes maravilhosamente bem preservados podem ter os seus negativos de som extremamente comprometidos, uma etapa consumirá mais tempo do que a outra.

Para brincar de restauração, o site educativo do Filmmuseum holandês traz um aplicativo no qual você escolhe um filme do acervo a ser “restaurado” e a brincadeira é usar filtros de som, filtros de luz, avaliar o contraste, escolher a janela correta e até mesmo compor uma nova trilha sonora para filmes silenciosos. Além disso, o aplicativo traz um glossário que ilustra e historiciza os componentes da imagem como os processos de cor, formatos de perfuração, banda sonora e os diversos formatos de quadros. A visita é divertida!